Descrição
Amante
Sou filha da última geração que ainda cresceu na rua. Os meus pais acreditavam na liberdade com responsabilidade, e eu aprendi cedo a tomar conta de mim — e a perder-me nos prazeres da vida. Sempre vivi a minha sexualidade intensamente, a oscilar entre a “good girl” e a amante. Demorei a perceber uma coisa: o que eu procurava no outro era, afinal, uma validação de mim própria. No jogo da sedução, queria ser vista. Mas no sexo, queria desaparecer — fugir da responsabilidade que carregava no meu dia. Esta máscara é esse jogo. Aqui, o poder que tenho sobre o outro esconde o poder que o outro tem sobre mim. Devorar, para não ser devorada.
Controlo
Tinha catorze anos quando tive de escolher um rumo. O meu pai encaminhou-me para Gestão — as artes não eram uma opção aceitável. E eu, para não o desiludir, calei-me. Foi a primeira vez que não usei a minha voz. Anos depois, vivi uma relação conjugal feita de abuso, e carreguei stress pós-traumático durante muito tempo. Duas vezes senti a minha vida a ser decidida por outros. Então virei-me para o oposto exacto da vulnerabilidade: rotina, listas sem fim, tudo à minha maneira, braço de ferro no trabalho e em casa. Parecia-me força. Só muito mais tarde percebi: o controlo é só o medo, disfarçado de outra forma.
Macaquinhos na Cabeça
Obsessiva. Ruminante. Esta máscara acompanha as minhas ondas emocionais e explora todos os cenários de uma situação para antecipar o que pode correr mal. Traz o desespero de uma mente com vida própria, companheira de insónias, por vezes paralisante. Não sei de onde veio — talvez tenha vindo de nascença. Apresenta-se como um monstro, mas deu-me o poder analítico de estar sempre prevenida.
Mãe
nasceu com a maternidade. Com a urgência animal de pôr o outro à frente de mim. Tornei-me alimento, fonte de vida. E, no início, deixei de ser eu. Lembro-me de um retiro, com a minha filha Mel ainda bebé — a tirar leite a quilómetros de distância dela, dividida entre a culpa e uma realização que não sabia explicar. Foi aí que percebi: ninguém me vinha salvar, e eu tinha de me escolher primeiro. Não por egoísmo — porque as filhas aprendem pelo exemplo, e eu não quero que um dia abdiquem de tudo por alguém. Aprendi a dar como um cântaro: a partir do que transborda, e não a partir do vazio.
Visionária
Esta máscara nasceu quando aprendi a usar a minha intuição. Recebia ideias que precisava de materializar de imediato. E tinham de ser à minha maneira — não por ego, mas porque sentia que só eu via o potencial. Não descansava enquanto não as visse fora da minha cabeça, no mundo. A capacidade de materializar é, talvez, o meu maior poder. Aos 25 anos fui desafiada a liderar uma equipa toda mais velha do que eu. E foi aí que percebi: alguém tinha de assumir esse papel. Foi desconfortável. Nem toda a gente quer a responsabilidade de liderar — e nem toda a gente tem essa capacidade. Eu tinha. Durante anos pus essa visão ao serviço de um lugar que ajudei a construir. Esta máscara não nasceu do medo, como outras. Nasceu da necessidade. Eu tenho a visão — e os outros mamam dela.
Raposa
Esta máscara nasceu de uma ligação muito antiga com a floresta. Em criança, fui passeada incessantemente por entre as árvores pelo meu avô Vladimir, enquanto ele apanhava cogumelos silvestres. Acreditava que as árvores falavam comigo. E ainda hoje me chamam. Quando, em 2025, a Serra da Lousã ardeu, arrasou com a minha serra — e com esta parte de mim. Mas mesmo assim, a máscara acredita que tudo acontece por um motivo e vê em todas as desgraças uma oportunidade. Vê beleza em cada pedra, cada flor, cada insecto. Quando totalmente manifestada, é aérea, desencarnada, não é nada mais do que parte de um desígnio maior.






